História para contar

Hoje eu ouvi uma frase bacana:

Meu vô falava que quando a gente fica velho não tem nada para fazer, então você gasta a maior parte do tempo contando história. Por isso ele falou que temos que gastar a juventude criando essas histórias…

Isso aconteceu em um almoço. Tive uma reunião com um casal que me foi apresentado por email. Cheguei um pouco atrasado no restaurante, e meu chefe estava ao telefone com ele.

– Magnus? Acabamo de chegar… você já está sentado?
(…)
– Ah, ok? No fundo? Ja vi você.

Ao mesmo tempo que ele desliga o telefone, um senhor se levanta ao fundo, e guarda o seu telefone. Fomos em direção a ele.

– Desculpa pelo atraso!
– Não! Sem problemas… olha, esse daqui é o meu sócio, Ricardo.
– Prazer, Ricardo, esse daqui é o Gilberto, trabalha comigo.
– Prazer Gilberto.

Estávamos quase para sentar, quando o senhor falou:

– Então você que é o cunhado do Carlos Alberto?

(…)

Eu olhei para o Antônio, ele olhou para mim, nós olhamos para a esquerda e tinha um casal, acenando timidamente para nós.

– Poxa, desculpa… foi um engano, nós estamos com aquele casal ali!
(risadas)

Trocamos de mesa e nos apresentamos para as pessoas certas. Nisso o Magnus falou:

– Nós não chamamos vocês antes porque achamos que vocês conheciam eles… Daí, quando vocês puxaram a cadeira para sentar a gente pensou… “é eles erraram de mesa”.

E foi aí que veio a história sobre as histórias para contar…

Terra a vista

Depois de um longo período sem post e de um período ainda mais longo longe de casa, eu finalmente estou voltando para o Brasil. Chego na minha terra em meados de fevereiro e já estou naquele clima estranho de partida.

É uma mistura de saudade de quem está do outro lado, com saudade de quem fica aqui, ansiedade para chegar logo, ansiedade porque está acabando. É muito esquisito.

Tirei esses dias para organizar meus arquivos de Moçambique, botar meus documentos em dia e fazendo isso eu achei umas fotos que me lembraram uma história engraçada.

Lá para Setembro deste ano, eu e uns amigos saímos num fim de semana para tentar chegar à Ilha de Xefina. Isso mesmo… tentar.

O barco saía da Costa do Sol, uma praia aqui de Maputo, meio feinha mas com seu charme. Combinamos com os pescadores, entramos no barco e seguimos velejando na direção da Ilha.

Depois de quarenta minutos, na velocidade de um pequeno barco de pesca, havíamos chegado à metade do caminho, só que… o vento acabou!

O vento acabou, alguns de nós estavam enjoados, outros não aguentavam mais o sol, mas mantínhamos o bom humor.

Esperamos uns 10 minutos e o vento voltou à soprar… na direção contrária. Os pescadores começaram a manobrar o barco para retornar e, infelizmente, não havia o que fazer. Xefina ficaria para uma próxima visita.

Uns 20 minutos depois de começarmos o regresso, um amigo português, Miguel, solta um comentário um pouco desavisado:

– Acho que estamos indo na direção certa. Se calhar em mais uma hora chegamos à Xefina.

Nessa, um outro amigo, Jorge, brasileiro e afiado responde:

– É Miguel… foi assim que vocês chegaram no Brasil!

É por essas que a gente vê que nossas piadas de portugueses têm grandes chances de já terem sido fatos verídicos…

Uma imagem

Tenho estado longe por algum tempo… então! Para compensar uma ausência totalmente injustificada (a não ser pela preguiça de escrever um pouco…), atualizei meu Picasa!

Hoje é um dia de tédio

… e eu sinto falta do meu saxofone…

Muita coisa

É o que aconteceu… E eu, sinceramente, estou com uma preguiça dionísica de escrever!

Lembrem-me essa semana de contar sobre:

– Aconteceu em Maputo;

– Mais uma sobre hospitais;

– Kwachena.

Juro que escrevo! Mas não hoje…

Ataque poético

↓ + → + → + rima forte

(se você não jogava video game, nem adianta tentar entender…)

Sobre a loucura

Nesse último fim de semana eu consegui assistir Alice no País das Maravilhas, a releitura lançada há pouco dirigida por Tim Burton. O filme possui elementos não só do País das Maravilhas, mas também do País dos Espelhos e, na minha humilde opinião, é um ótimo filme!

O que me chamou a atenção na história desta última vez foi o tema da loucura.

Logo no início, ao descrever seu pesadelo para o pai, Alice está perturbada e se pergunta se estaria enlouquecendo, ao que o pai responde que sim, de fato ela enlouquecera, mas assim são as melhores pessoas. E confesso que concordo com o Sr. Kingsley, afinal um dos personagens que eu mais gosto é o Chapeleiro Maluco.

Olhando para o passado, muitos dos grandes sábios, em vários campos das ciências e das artes, foram tomados por lunáticos pelo simples fato de flertar com o impossível. Por não querer enxergar a realidade nos padrões que suas sociedades tinham como referenciais, eram consideradas fora do “normal”.

Por que o normal é uma referência? Quem inventou o paradigma da normalidade? Por que algo como um aparato mais pesado que o ar e sustentando em vôo tornou-se banal em nosso cotidiano? Por que conversar com uma pessoa a milhares de quilômetros de distância, em tempo real, enquanto andamos não é maluquice?

Se prestarmos atenção veremos muitas coisas “impossíveis” acontecendo no nosso dia a dia. No livro “A estrutura das revoluções científicas”, Thomas Kuhn tenta responder a essas perguntas e faz uma análise sobre as invenções que foram revolucionárias à época de suas concepções sistematizando-as de forma bastante interessante. Basicamente o autor se refere a uma solução como um modelo capaz de resolver uma determinada quantidade de problemas relacionados ao seu campo de relevância. Essa quantidade de problemas nunca atinge a totalidade do campo de relevância da solução, no entanto, chega próxima o suficiente para enquadrar confortavelmente a parcela não solucionada ao que se chama de exceções ao modelo. Com o tempo, a quantidade de exceções cresce, e o modelo carece de revisões de tal forma a absorver mais problemas e deixar o “balde das exceções” mais leve para ser carregado até a próxima revisão. Como essa revisão nem sempre se dá de forma natural e gradativa, quando o modelo é revisto, a quantidade de problemas resolvidos passa a ser tão maior que a do modelo anterior que esse último acaba por ser considerado uma revolução. Normalmente, a concepção do novo modelo envolve ruptura com o anterior, mais desconfortável ou menos, e a essa ruptura o autor chama “quebra de paradigma”.

Vamos usar a Origem das Espécies, de Darwin, como um exemplo de quebra de paradigma. Imaginem se, ao invés de rechaçado por sua ruptura com a crença existente, ele recebesse uma resposta mais amigável, encorajadora. É sexta-feira e ele vai ao boteco local. Lá, ele encontra um padre, velho amigo seu que, depois de tantos no ofício religioso, acabou se tornando um grande fã de vinho. Algumas doses depois, Darwin desabafa e conta ao padre sobre o que vem inquietando suas noites:

– Ei, na real? Tze conzidero pa carai… Sze ta ligado né? Qui pra nóis? (hic) Vô tche contar um eschquema que eu tzo penszando (…)

Cerca de uma hora depois, o padre toma um minuto de silêncio e um gole a mais para ajudar a organizar as novas idéias em sua cabeça. Eis que responde:

Meu irmão, muito louca essza parada de evolução… Não peguei metadze do que cê falou, masch penzando bem, sze meu tataratataraavô era um macaco, então eu conzigo entender porque meu tio zsaiu tão feio, aê!

É óbvio que se fosse assim tudo seria mais fácil. O impossível só o é porque assim pensamos dele, e muitas vezes evitamos pensar na possibilidade do impossível por medo ou receio (ter um amigo de copo essas horas é essencial para superar essas barreiras!).

Agora, em uma análise grosseira (e digo grosseira porque sou administrador por profissão e não biólogo ou neurologista), o que temos por realidade é o que captamos do meio externo através de nossos sentidos. Cada uma dessas percepções é convertida por nosso sistema nervoso em impulsos elétricos e reações químicas e levada ao nosso cérebro para uma rápida avaliação. Já lá em cima, nosso centro de processamento, responsável por avaliar a sanidade dessas percepções, se põe a trabalhar. Portanto, se captarmos através de nossos olhos um hipopótamo de saia dançando balé, provavelmente o nosso centro de processamento classificará a percepção como não-real e forçará nossa percepção a “recobrar a realidade”. Além dessa rotina, temos um nível de realidade que depende inteiramente da nossa cabeça. Por exemplo: Uma árvore que se parte e cai no chão do outro lado do mundo, faz algum barulho? Nessa situação não temos nossos sentidos para atestar a veracidade de qualquer resposta, afinal não podemos ver onde a árvore caiu, ou mesmo se ela caiu de fato. Para responder à questão nosso cérebro avalia sua experiência passada. “Oras, todas as árvores que eu já vi cair no passado fizeram barulho. Melhor ainda! Coisas mais leves que uma árvore, quando se chocam contra o chão, fizeram algum barulho quando eu os vi cair, portanto acredito que deva ser da natureza de uma árvore em queda emitir algum som. Minha resposta é sim” – Diz seu cérebro, triunfante.

Esses dois casos nos mostram que o que chamamos de realidade é, de certa forma, parte o que captamos do meio externo e parte o que fazemos com isso em nossas cabeças.

Logo, podemos concluir que cada ser pensante é um agente ativo na criação da própria realidade.

Para não alongar demais o tema, gostaria de concluir com um momento que gostei muito do filme. Alice e seu pai têm um hábito interessantíssimo no filme. Ambos conseguem pensar em, pelo menos, seis coisas impossíveis antes do café da manhã. Acho que um ato de tamanha insanidade seja um ótimo hábito para se adotar! (Tentem! se não der em nada, pelo menos renderá algumas risadas aos leitores dos seus comentários aqui no blog…)


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